
Sempre ouvi falar do Monte Fuji, a tal montanha sagrada do Japão. Sabia também que era o ponto mais alto do país (3.776 metros de altitude) e que, apesar de ficar em outro estado, pode ser vista de Tokyo. Mas só quando cheguei aqui, soube que qualquer um pode escalar o Monte Fuji: até eu que nunca fui chegada a uma escalada. Nem de árvore!
Adorei a idéia. Afinal, eu adoro o Monte Fuji. É lindo demais e eu adoro ficar olhando pra ele. Nos meus primeiros meses no Japão, tive o privilégio de passar uns dias numa casa a pouquíssimos metros do Fuji-san (é assim que os japoneses chamam o Monte Fuji). E, é claro, eu aproveitei! Pode parecer loucura, mas tenho uma sensação de paz quando vejo o Fuji-san. A mesma de quando eu vejo o mar.
Deixa esse papo pra lá. Já ficou clara a minha paixão pela montanha sagrada dos

japoneses. Então, também tá na cara que eu fiquei super empolgada com a idéia de chegar ainda mais perto dela e ver o sol nascer lá de cima.
A empolgação era tanta, que nem lembrava que ia passar horas e horas em cima de um vulcão. Que ia andar como nunca tinha andado em toda a minha vida. Que ia sentir frio, sono, cansaço, dor nas pernas, dor-de-cabeça, taquicardia, falta de ar. Tudo isso ao mesmo tempo. Só lembrei, quando já estava lá. E não valia mais a pena voltar.
No verão de 2004, fui num grupo de oito pessoas: amigos do trabalho e amigos que conheci através do trabalho. Deu tudo certo, chegamos até o final (só a metade das 400 mil pessoas que começam a escalar, por ano, chegam até o topo) e vimos o nascer do sol mais lindo do planeta! Oops, eu disse tudo? Na verdade, deu QUASE tudo certo.

Na volta, nosso grupo se dividiu em três ou quatro (já esqueci). E todos os três ou quatro subgrupos erraram o caminho! Paramos o carro em Yamanashi, onde fica a trilha que subimos. Mas, por pura distração, voltamos pela trilha que termina em Shizuoka, ou seja, do outro lado da montanha - que de pequenininha não tem nada.
Tivemos de desembolsar 20 mil ienes (ou quase 200 dólares) para pagar um táxi e ir buscar o carro lá onde Judas perdeu a bota (Yayoi, essa é uma expressão que não tem na gramática. Se não entender, eu explico). E quem não estava no táxi, como eu, teve de esperar uma hora (ou foram duas?) até o carro chegar.
Uma semana depois e eu ainda estava cansada. Subir escada era um terror! Descer, então, Deus me livre! Sentar também era uma tortura pra mim, como seu eu fosse tão velhinha quanto à velhinha da Praça é Nossa (para quem não conhece, esse é um programa de humor da TV brasileira).

Terminada a aventura mais emocionante - e desgastante - da minha vida, prometi para mim mesma: vou subir o Monte Fuji de novo. Só que, da próxima vez, vai ser diferente. Nada de escalar à noite, caindo de sono e com pressa, como se eu fosse uma alpinista em busca de um espaço no Guiness Book.
Dois anos depois e promessa cumprida!
No início dessa semana, lá estava eu de novo, escalando o Monte Fuji. Foi cansativo sim, mas muito mas prazeroso. Dessa vez, foram três pessoas: eu, a Raquel e o Ken. Começamos a subida por volta do meio-dia. Às 8h da noite, paramos para jantar e dormir numa pousadinha, a mais de 3 mil metros de altitude.

Antes da meia-noite, já estávamos de volta à trilha. Muito menos cansados e com muito menos sono. Subimos (mais ou menos) tranqüilos até o topo. Chegamos lá às 4h da manha e só às 5h08, como nos avisaram, o sol nasceu. Hino do Japão, música do Fuji-san que, segundo o Ken os japoneses aprendem na escola, e um coro para saudar o sol!
É nessa hora que o cansaço vai embora. Que a gente vê que valeu a pena. Que a gente pensa em voltar. E esquece que falta a (mais cansativa ainda) descida.
Depois de dar uma conchilada, de comer, de ir ao banheiro (com papel higiênico e placa em japonês, inglês, chinês, coreano, espanhol e PORTUGUÊS) , de dar uma passada no templo - sim, tem um templo lá em cima - e de dar uma bisbilhotada na cratera, pegamos a trilha de volta.
Já era quase 10h. A caminhada só terminou às 2h45 da tarde. Dessa vez, na trilha certa. Comemos e pegamos estrada - ou melhor, trilho

, já que voltei de trem - para Tokyo. Cheguei em casa às 10h da noite. No dia seguinte, lá estava eu no trabalho. Cansada, mas inteira e com vontade de subir de novo!
FALTOU CONTAR...1 - Jovem, criança, velhinho, japonês, estrangeiro, brasileiro. Tinha tudo isso no caminho;
2 - Nas paradas, tem banheiro, comida, pilha, luvas, bombinha de oxigênio e cia;
3 - No topo tem lojinha de souveniers e correio;
4 - Nao tenho foto (a bateria acabou antes da hora!), mas encontramos tratores lá em cima! Eles levam essas coisas todas que citei no item 2 e ainda recolhem o lixo;
5 - A "pousada" que fiquei tem três andares, tem espelho que dá para ver o corpo inteiro (na minha casa não tem) e até closet!
6 - Só da para escalar o Monte Fuji no verão - nos meses de julho e agosto. Fora isso, a montanha "fecha";
7 - Todo ano, morre gente lá. A maioria é velhinho que não resiste ao Mal da Montanha, mas tem gente que morre ao cair da trilha;
8 - Vi duas placas em português: a do banheiro (não jogue papel dentro do vaso) e essa aí da foto, que tem escrito subida em português, japonês e coreano. Essa segunda aí serve pra quê?
9 - Tinha gente com ipod e celular durante a caminhada e até no topo!
10 - Uma latinha de "cocoa" (leite achocolatado) custa 400 ienes lá no topo e pouco mais de 100 ienes em qualquer outro lugar do Japão.
PARÊNTESE: pra variar, tô com problemas "técnicos". O computador já sarou, mas perdi o cabo da minha câmera e não posso descarregar as fotos. Essas aí são da câmera da Raquel...